Série Rrose Selavy, mesmo

Série Rrose Sélavy, mesmo

Página de jornal e serigrafia 

Dimensões variáveis

 

O porquê de Rrose Sélavy e outros mistérios, mesmo

No ano de 2000, intitulei de Rrose Sélavy, mesmo uma obra que surgiu de um acaso, um acaso que considerei na hora bastante significativo, resultado de um mero registro em vídeo.

Ao imprimir em serigrafia minha obra Camouflage sobre uma superfície de seis metros lineares, toda em cetim brilhante bege e largas manchas em verde, e já muito cansada, sem querer, borrei de repente o tecido — a tinta verde vazou, atingindo uma camada de jornais velhos que costumo usar para forrar a mesa de impressão. Por acaso — ou não seria por acaso? —, havia naquele jornal uma notícia em página inteira sobre uma Bienal de Veneza bem anterior, em que vinha a imagem de Duchamp, ou melhor, de Rrose Sélavy naquela famosa foto tirada por Emmanuel Radnitzky, vulgo Man Ray. E as manchas verdes tinham escorrido em torno da Rrose e sobre a notícia. O acaso havia reunido ali, pelo menos para mim, equivalências entre o próprio sentido do que é a minha camuflagem e a androginia duchampiana.

Desde aquele momento, não separo mais essas duas imagens ao ver e ler qualquer manchete ou artigo de jornal, seja daqui ou do mundo, na língua que for. Sempre me surge uma possibilidade de uma interpretação de forma crítica e por vezes irônica, ou somente jocosa, como analisou a crítica alemã Karin Stempel. As manchas verdes se encarregam de cobrir o que não me interessa, não sou eu quem mexe nas manchetes.

Devo ter criado, até hoje, umas 300 interferências, colagens. Tenho preferência por certos jornais, aqueles dos quais não consigo dispensar nenhuma de suas páginas. É, o caso, por exemplo, do jornal madrilenho El País, do francês Le Monde, do New York Times, da Folha da Tarde ou de O Globo que vêm favorecendo possibilidades através de manchetes um pouco mais metafóricas. Esses resultados já figuram em coleções como na própria Arco, Madrid; no Pompidou e em coleções particulares.

Daí, isto é, por causa dessa relação mais intensa com a obra de Duchamp, da Rrose, pedi ao próprio Marcel que me contasse um pouco a razão, o motivo dele colocar tanto argot nos enunciados de suas obras, pois o que usa é considerado vulgar, da subcultura francesa, ainda mais nas artes plásticas. Eu o lembrei de que ele fez isso até com o seu próprio nome, ao embaralhar Marcel Duchamp em Marchand du Sel e usar como título de um livro! Claro que eu também gosto de usar ironias, situações jocosas no meu trabalho, como ao criar as quatro caras de mulheres de etnias diversas pronunciando a palavra “burocracia”, ou mesmo ao usar o que descrevi acima, da persona de Duchamp, mas confesso que, mesmo assim, é muito machista, pornô e inaceitável por exemplo: o L.H.... (rarararara!). [é para ficar apenas as primeiras letras, mesmo?] Também lhe disse que criou alguns anagramas interessantes, pois realmente se tornam “indiferenciações”, como no caso de La crasse du tympan [A sujeira do tímpano], no lugar de La sacre du printemps [A sagração da primavera] (Stravinsky, 1913). Mas isso é meio antigo, até aqui no Brasil.

Porém, o que me preocupou, e eu lhe disse isso, foi quando, e o porquê dele, de repente, largar mão de tudo pelo jogo de xadrez! Tornou-se um jogador contumaz, virou um vício, que faz a pessoa não ter mais hora, nem dia para parar e ir apreciar a natureza. Eu até sei, conheço bem de perto um viciado como ele, mora comigo — é o Pedro Pinchas, meu marido.

Mas sim, eu sei, houve uma outra paixão no caso de Marcel. “Sim, eu sei que você amou de paixão uma ‘patrícia’ minha, a Maria Martins. E ela aprendeu tanta coisa contigo também. Não foi o dadaísmo, mas enveredou por um surrealismo, bem bom também”. Just for the records, eu conheci a Maria. Era quase minha vizinha aqui no Flamengo. Quando vinha ao Brasil, ao Rio de Janeiro, chamava-me para visitá-la. A varanda do seu apartamento era ornada com plantas verdes de plástico.

E um dia ela me deu um broche de metal dourado, abstrato, lindo! Hoje em dia a gente quase não usa broche. Guardei no meu cofre.

Volto a você, Marcel, e agora me conta: “por que esses dois RRs na Rrose?”

E assim continuamos a nossa conversa por horas, quando ele também me revelou o significado de alguns dos símbolos — signos usados por ele, quando intitulou La mariée mise à nu par ses célibataires, même. Por que relacionou a noiva com seu vestido branco com o albedo? Da alquimia? Ou naquele outro objeto, o Broyeuse de chocolat?

Ele se emocionou mesmo quando lhe revelei que, em 1975, fiz uma obra em que colei, ao lado de uma foto dele, uma foto minha, em que estou vestida de noiva, do meu próprio casamento, em 1956: The bride met Duchamp before the bachelors, porque, afinal, eu o encontrei antes, não foi?

 

Anna Bella Geiger, née Waldman

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Rrose Sélavy, mesmo

Newspaper page and silkscreen

variable dimensions

The why of Rrose Sélavy and other mysteries, really

 

In 2000, I named an artwork that emerged by chance Rrose Sélavy, mesmo (Rrose Sélavy, really).  A chance happening that I then considered very significant and was the result of a mere video recording.

When screen-printing one of my works named Camouflage upon a surface that was 6 linear meters of shiny beige satin with large stains of green. Feeling very tired, I suddenly and unwillingly smeared the fabric – the green paint leaked onto a layer of old newspapers which I usually use to cover the printing table below.   By chance, - or perhaps not?- there was in the newspaper a full-page article about a previous Bienalle di Venezia, in which there was an image of Duchamp, or better, of Rrose Sélavy in that famous photograph taken by Emmanuel Radnitzky, aka Man Ray. And the green stains had surrounded Rrose and the news story.

Chance had brought together, at least for me, the equivalence between the real sense of what was my camouflage and the Duchampian androgyny. 

 

Since then, I no longer separate these two images when seeing and reading any headlines or newspaper article, whether from here or elsewhere in the world, in whichever language these may be. I always find a possibility and a critical and sometimes ironical, or only humorous, interpretation as analyzed by German critic Karin Stempel. The green stains are responsible for covering what I am not interested in. It is not I who tampers with the headlines..

Until today, I must have created around 300 interferences and collages.  I have a preference for certain newspapers, in which I cannot dismiss any of their pages. This, for example, is the case of the newspaper from Madrid El País, or Le Monde, or the The New York Times, or the Folha da Tarde, or Globo that has been favoring possibilities with its slightly more metaphorical headlines.  These results can already be found in collections such as at the ARCO, in Madrid, or at the Pompidou, in Paris, and in private collections.

 

Thus, because of this more intense relationship with Duchamp´s Rrose, I asked  Marcel, himself, to tell me a bit about why he had used so much argot in the enunciations of his works, since those he uses are considered vulgar, from the French underworld culture, and even more so in Visual Arts. I reminded him that he did this even with he own surname, when he scrambled the letters of Marcel Duchamp to Marchand du Sel and used it as the title of a book! Of course, I also like to use irony and humorous situations in my own work, like creating the faces of four women of different ethnicities, pronouncing the word “bureaucracy”, or even by using, as described above, the persona of M.D., but I confess that, even so, it is very chauvinistic, pornographic and unacceptable, to use for example: LH.... (hahahahaha!) And I told him that he had created some interesting anagrams, as these had truly become  “undifferentiated”, such as in the case of La crasse du tympan [The discharge of the eardrum], instead of  “La Sacre du Printemps” [“The consecration of Springtime”] (Stravinsky, 1913). But that is a bit old, even here in Brazil...

However, what concerned me, and I told him so, was when and why he suddenly abandoned everything to play chess! He became a persistent player in this vice that causes a person no longer to worry about the time or day to stop and to enjoy nature.  I even know, very closely, another addict just like him. He lives with me - and is Pedro Pinchas, my husband.

But yes, I know, there was another passion in Marcel´s case. Yes, I know that you passionately loved a “compatriot” of mine, Maria Martins. And she also learned so much from you. It wasn´t Dadaism, but led to surrealism, that was also very good. Just for the record, I knew Maria. She was almost my neighbor here in Flamengo. When she came to Brazil, to Rio de Janeiro, she would call me to visit her. The verandah of her apartment was decorated with green plastic plants. 

And, one day she gave me a lovely golden, metal, abstract brooch! Nowadays, we practically don´t wear brooches.  I put it away in my safe. 

Back to you, Marcel, and now tell me: why those two RRs in Rrose?

And thus we continued our conversation for hours, when he also revealed to me the meaning of some of the symbols - signs used by him, when he named La mariée mise à nu par ses célibataires, même. Why did he relate the bride with her white dress to the albedo? From alchemy? Or in that other object, the Broyeuse de chocolat?

And he became really emotional when I told him that in 1975, I produced a work in which I glued, next to a photo of him, my photo, in which I am dressed as a bride, from my own wedding in 1956: The bride met Duchamp before the bachelors, because in the end, I met him first, didn´t I?

 

Anna Bella Geiger, née Waldman